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Sérgio Godinho em entrevista: “A criação tem algo de mágico e misterioso”

No último dia do mês de Setembro, estivemos à conversa com Sérgio Godinho. Tudo girou à volta da sua nova canção, “O Novo Normal” (uma reflexão sobre a pandemia que se abateu sobre nós) e do que há de godinhiano na mesma: a subversão das frases feitas, a riqueza rítmica da palavra falada, as fronteiras sempre lassas entre o pessoal e o político.

Altamont: O teu novo tema, “O Novo Normal”, é também uma canção sobre o medo irracional que nos paralisa. Quando “refreamos as audácias e inobservâncias” caímos numa espécie de sub-vida?

Sérgio Godinho: Quer dizer, eu acho que a canção “O Novo Normal” é um breve fresco de várias situações que emergiram com toda esta pandemia. Se eu digo isso, “refreie as audácias e inobservâncias”, também digo “escolha bem as audácias”. Ou seja, não podemos ficar só numa atitude passiva, paralisados pelo medo. É preciso, por um lado, proteger-nos (até porque é uma responsabilidade colectiva) mas também temos de saber até que limite podemos ir. Agora, o medo tem fundamentos: o risco de se ser contagiado, de se ficar gravemente doente, existe. Naquela parte mais falada, eu digo: “mantenha as distâncias, respeite os espaços, refreie essas ânsias, de beijos e abraços” porque esse refrear é um movimento anti-natural para nós. Eu até com os meus filhos e netos não posso ter todas as manifestações de afecto, “de beijos e abraços” que gostaria. Mas temos que depois dosear.

Sendo um dos temas desta canção o medo, e as suas virtudes e perigos, recordo que no teu segundo disco (Pré-Histórias, 1973) tens uma canção sobre o medo: “Eh, Meu Irmão”, escrita num contexto histórico completamente diferente. Qual é que consideras que foi a época mais trágica, e em que mais fomos toldados pelo medo: o período da ditadura da primeira canção ou o que vivemos hoje com a pandemia?

Eu acho que não é comparável, o medo durante a altura do fascismo era uma coisa mais invisível, mais entranhada. Já a pandemia foi uma coisa que caiu como uma trovoada em cima de todos nós e nunca tínhamos vivido uma coisa assim. De qualquer maneira, sempre tratei muito do tema do medo. Aliás, tenho um livro infanto-juvenil sobre o assunto: “O Pequeno Livro dos Medos” (que teve edições sucessivas e integra o Plano Nacional de Leitura), onde está subjacente a ideia de que os medos existem desde a mais tenra infância e que fazem parte de nós.

O medo é adaptativo…

Claro. É uma defesa. Eu tenho medo de atravessar uma rua cheia de carros fora da passadeira porque tenho medo de ser atropelado. Isto é de salutar que seja assim. Faz parte de nós. Aliás, repesquei essa canção, o “Eh, Meu Irmão”, há um ano e meio, a convite do CCB, em três concertos no Pequeno Auditório que se chamaram, justamente, “O Primeiro Concerto dos Medos”, com o Filipe Raposo ao piano e o meu filho André na manipulação de imagens em tempo real (é pena que não tenha havido um registo vídeo desses concertos). Fiz também para esse concerto uma canção original, a partir de excertos do livro “O Pequeno Livro dos Medos”.

Sérgio Godinho (retirada da Biografia oficial “Retrovisor)

Essa canção do “Eh, Meu Irmão” tem um tom satírico e burlesco, ao contrário de “O Novo Normal”, com um tom sério, quase fúnebre, reflectindo os tempos difíceis por que estamos a passar. Há alguma razão por teres optado agora por este registo mais dramático?

Não, eu sempre tive, em qualquer altura, canções mais satíricas, que falam de coisas sérias e que denunciam certas coisas. Eu achei que aqui neste breve fresco tinha de se falar de coisas extremamente trágicas: “caem corpos à sorte/ em valas comuns / num silêncio de morte / cortado somente / por soluços distantes”. Mas também falo daquela coisa que é quase inevitável nestes assuntos: e se nós acordássemos e tudo não tivesse passado de “um pesadelo fugaz”, que é um sentimento de preservação mas também é, de certo modo, uma esperança porque isto não vai durar para sempre.

Sempre te apropriaste nas tuas letras (é uma das tuas imagens de marca), de chavões coloquiais, dando-lhes depois novos sentidos. Há toda um longo rol de exemplos: “até domingo que vem”, “para quem é bacalhau basta”. “não respire, pode respirar”, “só neste país”…

O próprio “hoje soube-me a pouco” é o coloquialismo extremo, não quer dizer nada…

E aqui recorres novamente a esse exercício, brincando com o lugar comum “o novo normal”, que tem um elemento de ironia porque estes tempos não são nada normais, parece que estamos num filme distópico de ficção científica. De onde é que vem esse teu fascínio estético por pegares em frases batidas, para depois as subverteres?

Eu acho que é intuitivo. A criação tem algo de intuitivo, de mágico e misterioso. Mas o humor e a criatividade são mesmo isso, olhar o velho a partir de um ângulo novo. Eu sempre gostei muito das palavras e das frases feitas (e das frases por fazer, já agora). Na minha casa, praticava-se muito isso, os meus pais tinham ambos um humor muito rico, e uma apropriação desses termos, dessas expressões, que me dava grandes pistas.

É uma herança familiar…

Absolutamente. Nisso e noutras coisas (na arte, na cultura, nos valores), eu fui alimentado também por isso e depois o que aconteceu foi que os meus dois primeiros discos foram escritos quando estava fora (em Genéve e depois em Paris). O meu reencontro com a língua portuguesa foi também um exercício de memória activa dessas palavras que nos definem. Há uma canção no segundo disco (Pré-Histórias, 1973) que se chama “Porto, Porto”, em que resgato também expressões populares referentes à minha cidade-natal.

Sérgio Godinho (retirada da Biografia oficial “Retrovisor)

O recurso a essas frases feitas tem também um lado de ternura pela nossa cultura, não é?

Absolutamente. É uma identidade comum que nós temos. Nessa canção, “Porto, Porto”, pego em coisas muito específicas: por exemplo, nos eléctricos havia escrito nas janelas “se alguma janela aberta o incomode peça ao condutor que a feche”. Refiro isso na canção. Enquanto pessoa deslocada precisava desse exercício de reconhecimento.

E que geram no ouvinte um grande sentimento de identificação… 

Sim, claro. Sobretudo no Norte. Lisboa praticamente não conhecia. Fui duas vezes a Lisboa com os meus pais mas meia-dúzia de dias. Isso foi outra coisa que foi interessante, depois do 25 de Abril, eu ter vindo para uma cidade que me era praticamente desconhecida. Assim como antes descobri Genéve, Paris, Montreal, Vancouver…

Entretanto já adoptaste Lisboa como tua, de tal maneira que até lhe dedicas uma canção, o “Lisboa que Amanhece”.

Curiosamente, o Rui Veloso e o Miguel Araújo, ambos do Porto, também a adoptaram, revisitando o “Lisboa que Amanhece”. Uma cidade como Lisboa  tem imensa gente que veio de fora.

Definindo a própria essência da cidade?

Claro que sim e até, no caso, de várias origens, até de outros países, os africanos, os brasileiros, e é isso que nos enriquece.

A maior parte das tuas canções têm música e letra escrita por ti. Sempre houve algumas excepções (como as colaborações com o José Mário Branco e o Jorge Contante Pereira) mas nos teus últimos trabalhos, como o”O Novo Normal”, e em grande parte do álbum Nação Valente, o modelo letra tua/música de outro tende agora a ser a regra. Porquê? A carpintaria das palavras tornou-se mais apelativa do que a musical?

Tenho dificuldade em prescindir do meu universo poético-literário. De facto, no Nação Valente, há várias parcerias que têm essa lógica, com o Hélder Gonçalves, com o Pedro Silva Martins, com o Filipe Raposo, com o próprio Nuno Rafael. Foi talvez o caso em que eu fiz mais parcerias mas também num disco chamado Coincidências tenho várias. Mas aí há um caso curioso. Há uma canção chamada “Um Tempo que Passou”, com o Chico Buarque. Eu queria que o Chico me fizesse uma letra e então ofereci-lhe uma música, é talvez dos poucos casos em que há música minha e letra de outro. Musiquei também poemas do Alexandre O’ Neill. Há alguns casos assim mas são muito raros. Eu tenho facilidade em me apropriar – e até, já foi escrito, “canibalizar” – a música dos outros, fazendo-a minha.

Sérgio Godinho (retirada da Biografia oficial “Retrovisor)

Eu também sinto isso com “O Novo Normal”, parece uma música tua.

Isso foi-me dito pelos próprios compositores. Mas também há uma coisa que foi interessante. No Nação Valente há uma única canção sem letra minha, escrita pela Márcia, o “Delicado”, e na crítica ao disco no Expresso o João Lisboa diz que parece uma canção godinhiana

Uma coisa curiosa é que no Nação Valente há uma canção que tem música do José Mário Branco, “Mariana Pais”, que resistiu à canibalização.

Foi, de certo modo, de propósito.

Uma espécie de homenagem?

Sim. Nos graves usei um bocadinho o timbre do Zé Mário, aqueles graves muito ricos que ele tinha, e eu dei um bocado isso, até porque a canção assim o propicia. De facto, também mo foi dito: “isso soa a José Mário Branco“.

Vocês foram cúmplices criativos desde os primeiros discos mas têm personalidades musicais muito diferentes, tu sempre com alergia aos hinos e o José Mário sempre muito épico… 

Não é só épico. Eu acho que o Zé Mário Branco tem também um sentido trágico, e eu não tenho nada essa noção. Tenho canções muito dramáticas, o “Fotos do Fogo” é um tema pesado, mas nunca tive um sentido trágico da vida. O Zé Mário sempre teve essa componente, até na sua personalidade. Nós somos muito diferentes mas fizemos logo um clique. Houve alturas em que passámos muito tempo sem termos contacto, até que houve um retomar na aventura dos Três Cantos, que foi, de facto, algo muito forte.

Eu estive lá e foi muito comovente…

E aí fizemos uma canção juntos que não tínhamos feito há um tempo mas foi muito curioso: há uma primeira parte da canção, com música do Zé Mário e letra minha, e uma segunda parte em que escrevo a letra e a música. Foi uma canção feita a quatro mãos.

Sérgio Godinho (©Luís Flores)

Sempre gostaste de te rodear de malta mais nova. A partir de 1997, com Domingo no Mundo, esse diálogo entre gerações acentuou-se, muito por virtude da colaboração com o Nuno Rafael, e das referências estéticas pop/rock mais recentes que este trouxe para os arranjos. “O Novo Normal” segue o mesmo caminho, através de uma parceria com Nuno Rafael e Samuel Úria… 

Eu vou explicar. “O Novo Normal” começou por ter, num primeiro rascunho, letra e música minha. Depois, o Nuno Rafael propôs algumas alterações. Estruturalmente, a música é minha e do Nuno Rafael, com umas pinceladas finais do Samuel, que enriqueceram a canção. Li uma crítica qualquer, dizendo que a canção era mesmo à Samuel Úria. Não é verdade. Mas também isso não interessa. Eu gosto imenso do Samuel, acho que é um tipo muito criativo. Gosto muito dele como pessoa.

Essa contaminação de sangue novo é o teu elixir da eterna juventude?

Não. Até porque em muitos casos foram os mais novos que vieram ter comigo. É o caso dos Clã desde o Afinidades e de Hélder Gonçalves, com quem já fiz várias parcerias. E no último disco dos Clã há duas canções que têm letra minha, entre as quais uma que eu gosto imenso que se chama “Tudo no Amor”, e que nos espectáculos que tenho vindo a fazer no Maria Matos (ainda vou fazer mais dois a 12 e 13 de Outubro), nós, já em encore, fazemos, praticamente só eu e o Rafa na guitarra, uma versão dessa canção.

No refrão de “O Novo Nomal” há uma espécie de rap. Ora desde o “O’Neill” do Pré-Histórias, já lá vão uns anitos, que tu brincas com a palavra falada… 

E o próprio “Elixir da Eterna Juventude”.

O que é curioso é que o “O’ Neill” foi feitos vários anos antes do nascimento do hip-hop e tu já exploravas nessa altura as possibilidades rítmicas da spoken word. De onde é que vem esse teu interesse pela palavra falada? Sei que gostas muito do Dylan e o “Subterranean Homesick Blues” é muito “rapado”. Há alguma influência?

Eu tenho influências do Dylan, sem dúvida. Não gosto de tudo mas acho que o Dylan é muito criativo. Mas houve uma altura em que a voz dele tinha perdido imensas virtudes e características, foi uma coisa um bocadinho penosa de ouvir (agora, já recuperou um pouco). Mas é um tipo de uma criatividade incrível. Aliás, só como um parêntesis, eu achei uma ideia brilhante o Nobel dado ao Dylan, muito ousado como gesto, aliás, controverso (se calhar, ainda bem que é controverso, não é). Quanto à spoken word, um dos meus livros de referência, de adolescência, foi o “On the Road” do Jack Kerouac, onde a riqueza rítmica do bebop, que tanto o apaixonava, era traduzida na riqueza rítmica das palavras. O próprio Kerouac gravou poesia falada com um fundo musical, um fundo rítmico, isso já existe há muito tempo. Mas atenção, eu não sou um fanático do rap e do hip-hop. A uma certa altura, começaram a dizer, por causa do “Elixir da Eterna Juventude” que eu era o primeiro rapper protuguês. Ora eu não prescindo facilmente do lado melódico e harmónico da música. Portanto, o que há é uma adequação rítmica muito forte da palavra à música, e isso também se deve ao facto de eu começar geralmente pela melodia. Até mesmo nas parcerias eu prefiro que me dêem uma música, para eu depois trabalhar sobre ela. A palavra já vem grafada à música.

Sérgio Godinho (Foto: Francisco Pereira)

Uma das coisas muito específicas na tua linguagem é uma métrica muito idiossincrática, muito percussiva, a forma de falares e cantares parece quase uma bateria, muito sincopada, como se as sílabas dançassem.

Sim, sobretudo nas músicas mais rítmicas.

Sempre foste muito livre e independente, nunca integraste nenhum partido político, tens uma vertente quase anarquista. Consideras-te um beatnik?

São rótulos do passado, movimentos circunscritos ao seu tempo. Sou uma pessoa que ama a liberdade, sou alguém que é naturalmente criativo, sou mais urbano do que rural, as minhas canções têm um teor mais urbano, e são canções autorais. Tenho um bocado dificuldade em me encaixar num rótulo. É por isso que essa coisa de “cantor de intervenção”, que aparece depois do 25 de Abril, o que é que isso quer dizer? Muitas das minhas canções mais conhecidas – “O Primeiro Dia”, “Com um Brilhozinho nos Olhos”, “Espalhem a Notícia”, “Lisboa que Amanhece” – não têm nada de político. O que é que é isso de intervenção? A intervenção é um rótulo vazio e redutor: há muitas canções em que eu misturo esses géneros supostamente diferentes. Uma canção como o “Dancemos no Mundo” é, ao mesmo tempo, uma canção de amor impossível e uma canção social, até com aspectos políticos fortes.

Como no “2º Andar, Direito”, que é uma canção de amor, mas que às tantas dizes “espero que não seja preciso porque não sei como eles vão viver sem os dois salários”…

Isso mesmo. A vida mistura-se e é nessa mistura que nós encontramos a nossa própria identidade. Eu posso dizer que sou um português muito português e, ao mesmo tempo, que sou também um cidadão do mundo, encontrando-me à vontade em países estrangeiros onde vivi. Aprendi também a pensar de outra maneira. Quando se pensa noutras línguas pensa-se também de uma forma um bocadinho diferente. Vivi no Canadá, tive uma mulher canadiana, falávamos inglês, isso também cria uma espécie de identidade global que vai para além da pátria e de Portugal. Mas sinto-me muito português e é aqui que quero viver.

Nação Valente tem muito esse lado de afecto pela nossa cultura, sem cair nos nacionalismos parvos…

Claro. A própria canção “Nação Valente” fala disso.

A propósito do que disseste sobre o rótulo “cantor de intervenção”, mesmo os teus dois discos do PREC (À Queima Roupa e De Pequenino Se Torce o Destino) têm canções não políticas.

Claro que têm. E depois há o “Etelvina” que é um retrato social de uma rapariga desfavorecida mas que não tem um lado estritamente político. É uma canção de amor, mas também um posicionamento perante a sociedade e perante os outros.

Muito obrigado pela entrevista e pela tua generosidade por partilhares tanto do teu tempo connosco.

Obrigado, eu. E devo dizer que já li várias das vossas análises aos discos: são interessantes e revelam um olhar atento.

Cantores há muitos, autores são muito poucos; tivemos o privilégio de falar com um dos maiores.

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