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Uma Mão Cheia de Harry Nilsson

Harry Nilsson teve uma vida curta, num quase constante lost weekend. Subiu ao quase estrelato e foi votado ao quase esquecimento. Esse advérbio quase resume o percurso de um artista tocado pelo génio.

Há coisas que não se compreendem nem se explicam facilmente. E no mundo da música também, pois claro. Por exemplo: como é possível que ainda hoje o nome Harry Nilsson não tenha a notoriedade que merece? Para além de injusto, é incompreensível, uma vez que vários são os álbuns e as canções que mereciam maior destaque e até reverência mundial. Alguns tiveram-nos, mas o tempo foi apagando esse reconhecido brilhantismo. E assim, este Uma Mão Cheia tentará, à sua maneira, dar a conhecer cinco discos de enorme qualidade de um músico excecional e que foi sempre passando (em Portugal, então, nem se fala dele) à margem do estrelato que lhe deveria estar reservado por direito e para sempre. Falemos então de Harry Nilsson, o pequeno génio excêntrico de Brooklyn, Nova Iorque, através de cinco fatias sonoras da sua discografia, aqui no Altamont!

Como sempre fazemos nestas coisas, começaremos pelo mais antigo, e avançaremos até ao mais recente, mesmo que todos eles, os álbuns escolhidos, estejam cronologicamente bastante distantes dos dias de hoje, sendo todos do século passado, uma vez que Harry Nilsson faleceu no início de janeiro de 1994, aos 52 anos de idade. Vamos a isto, então, com a promessa de tentarmos não dizer mais do que o necessário sobre as nossas escolhas.

Pandemonium Shadow Show (1967): o ano de 1967 foi fabuloso por muitas razões e mais esta – o disco de estreia (Spotlight on Nilsson, de 66, é mais uma compilação de singles do que um álbum propriamente dito) de Harry Nilsson é, para muitos, o seu melhor. De qualquer das formas, quer se concorde ou não com essa comum opinião, trata-se um disco de primeiríssima água. Todo ele, capa incluída, é surpreendente. Se as canções são ótimas, o que dizer da voz? Não é à toa que se dizia que ela parecia reproduzir, em simultâneo, uma coro de muitas vozes (“a chorus os ninety-eight voices”). Amante da escrita de Ray Bradbury, Nilsson pediu autorização ao grande génio da ficção científica para que o álbum tivesse o título de um dos seus romances (Something Wicked This Way Comes), mas a desejada permissão não chegou em tempo útil, tendo o músico optado por Pandemonium Shadow Show, que curiosamente é também uma expressão que surge num outro romance do escritor em questão. O álbum inclui temas originais e algumas versões. Duas dos The Beatles (“You Can’t Do That” e “She’s Living Home”) e uma de Phil Spector, Jeff Barry e Ellie Greenwich (“River Deep-Mountain High”), entre outras. O álbum não vendeu muito, mas chegou ao Top canadiano, sobretudo por via do primeiro tema dos Fab Four aqui mencionado. Aliás, a aproximação entre os gigantes ingleses e o pequeno americano começou a dar-se por essa altura, tendo os The Beatles dito em entrevistas, um pouco mais tarde, que o melhor artista americano se chamava Harry Nilsson, também designado por muitos como um outro “quinto Beatle”, tal a semelhança entre o artista e a banda mais famosa do que Deus. As melhores canções originais são “Cuddly Toy”, “Sleep Late, My Lady Friend” e “It’s Been So Long”. O álbum é um bom exemplo do pop-rock psicadélico dos finais dos anos 60 do século passado. Bem bom!

Aerial Ballet (1968): e no ano seguinte, Harry Nilsson deu-nos Aerial Ballet, outro belo e credível álbum. Mais um lote de canções cheia de boas ideias, mais um punhado de temas que revelam, no seu todo, um grande apreço pelo estilo beatlesco em moda na época. No entanto, não se entenda, pelo que agora se escreveu, tratar-se de uma descarada cópia do jeito tão particular do quarteto de Liverpool. Nada disso. O que se destaca, em algumas canções, é a voz de Harry Nillsson, tão próxima de um qualquer instrumento por inventar. Ouça-se, por exemplo, os instantes finais de “Mr. Richland’s Favorite Song”. Mas o disco merece ser ouvido com ouvidos largos, amplificando algumas novidades em relação ao anterior, desde logo saudando-se volume do número de canções de sua própria autoria, algo que não acontecia no disco do ano transato. Há muitas e boas, como se verá. No entanto, a que mais marcou o LP foi “Everybody’s Talkin”, cover de Fred Niel, que fez parte da banda sonora de Midnight Cowboy, filme de 1969, estrelado por Jon Voight e Dustin Hoffman. A canção é, ainda hoje, reconhecida por muita gente, embora nos pareça que não serão muitos a saber que a canta. Mas voltemos às autorais, aquelas que começavam a revelar um autor em crescimento, cada vez mais apto a afirmar-se como um artista a ter em conta: para além da já mencionada “Mr. Richland’s Favorite Song”, “One” será, talvez, a mais importante de Aerial Ballet, e uma das que mais facilmente se faz ouvir o eco de McCartney, Lennon e companhia, sobretudo quando a famosa dupla escrevia temas com uso de cordas. “The Wailing of the Willow”, “Together”, “Little Cowboy” e “I Said Goodbye To Me” são também enormes canções deste ótimo trabalho discográfico.

Nilsson Schmilsson (1971): este foi um disco importantíssimo para o nosso homem. Juntando-se ao produtor Richard Perry, a ideia terá sido a de criar um trabalho mais orgânico, mais rock’ n roll, mais direto. Resultou plenamente e foi nele que surgiram temas intemporais como “Without You”, uma das mais bonitas baladas dos anos setenta. Mas há mais, evidentemente: “Gotta Get Up”, “Jump Into The Fire” e “Coconut” não deixaram ninguém indiferente e fizeram sucesso na época. O disco acabou por ser nomeado para Álbum do Ano, acabando por ser também o seu maior sucesso comercial. Para além disso, Harry Nilsson foi o vencedor do Grammy para o Melhor Vocalista Masculino da Música Pop. Ninguém duvida que os dez temas de Nilsson Schmilsson foram responsáveis para um apreciável acréscimo de popularidade. Na verdade, o álbum revela uma frescura ainda muito audível, para além das boas surpresas das faixas aqui distinguidas, em canções como “Let The Good Times Rool”, por exemplo. Ou “The Moonbeam Song”, de tão bonita que é. A fotografia da capa também se tornou icónica. Os astros pareciam verdadeiramente alinhados para Harry Nilsson, e o LP vendeu bastante em várias partes do mundo, registando edições em países com a Coreia do Sul. Nilsson Schmilsson terá mesmo sido o ponto mais elevado da carreira discográfica de Nilsson, tanto por via da aceitação crítica, como por via da aceitação do público. Muitos novos fãs terão surgido depois de este álbum ter sido lançado. Assim, tudo parecia indicar que seria obrigatória uma continuação de Nilsson Schmilsson, coisa que veio a acontecer, embora não com os resultados esperados. Foi pena que tal tivesse acontecido. Esse estado de graça, digamos assim, durou apenas alguns meses.

Son of Schmilsson (1972): a pressão era muita para que Harry Nilsson fizesse uma sequela de Nilsson Schmilsson. Tanto assim foi que Harry voltou a contratar Richard Perry, provavelmente na esperança de dar crédito ao velho provérbio sobre equipas vencedoras. No entanto, a excentricidade do músico veio ao de cima, e Son of Schmilsson acabou por não ser o álbum desejado pela editora e o esperado sucesso comercial não aconteceu. Um décimo segundo lugar no Top da Billboard foi o máximo que conseguiu. Mesmo assim, nada mau. O disco contou com a colaboração dos bons amigos Ringo Starr (creditado como Richie Snare) e George Harrison. O primeiro tocou bateria em várias faixas do álbum, o segundo tocou slide guitar em apenas uma, a conhecida “You’re Breakin’ My Heart”, um dos mais conseguidos temas de Son of Schmilsson, a par de “Spaceman”. Colocar este álbum no reduzido lote dos melhores trabalhos do músico de Brooklyn é um risco que corremos, uma vez que a sua qualidade é discutida há muito. Pouco nos importa tudo isso. Gostamos dele por ter algumas ótimas canções, mas também pelo seu lado mais offbeat, mais descentrado. Já alguém o rotulou de álbum bêbado, provavelmente com uma boa dose de razão. No entanto, Son of Schmilsson rocks! E de que maneira. Ouça-se “Take 54”, o tema de abertura, ou o já mencionado “You’re Breakin’ My Heart” (“You’re breakin’ my heart / You’re tearing it apart so fuck you”) para se perceber o que dizemos. Mas também nele se encontram bonitas baladas como “Remember Christmas”, para dar apenas um exemplo. Talvez seja um disco que se estranha, mas que vai cimentando raízes em quem o ouve.

Pussy Cats (1974): Pussy Cats é um belíssimo disco, embora algo acidentado no processo de gravação. Produzido pelo seu grande amigo John Lennon, o título inicial (Strange Pussies) acabou por ser rejeitado pela gravadora RCA. Qualquer dos títulos é uma brincadeira que derivou do facto da má imprensa que ambos os músicos (Nilsson e Lennon) tinham na altura, uma vez que os dois andavam sempre mais ébrios do que sóbrios. No entanto, outras situações inesperadas marcaram o período de gravação e produção de estúdio, desde logo o facto de Harry Nilsson ter rompido uma das suas cordas vocais, algo que se nota tremendamente em algumas faixas, sobretudo na lindíssima “Old Forgotten Soldier”. Apesar disso, resolveram manter a voz exatamente da maneira como Nilsson a conseguia utilizar, disfarçando-a aqui e ali com alguns coros. Diz-se que Harry Nilsson nunca mais recuperou desse problema vocal. Ringo Starr volta a tocar em mais um álbum de Harry Nillson, e um outro nome de grande relevo também surge por aqui, o do também baterista (e que baterista!!!) Keith Moon, que viria a falecer apenas quatro anos depois. Três covers se destacam na primeira fatia do álbum: um de Jimmy Cliff (“Many Rivers to Cross”) um outro de Bob Dylan (“Subterranean Homesick Blues”), e um último de Doc Pomus e Mort Shuman (“Save The Last Dance For Me”), um dos melhores momentos de todo o disco. Outro excelente momento terá de ser o tema feito a meias com Lennon, o muito bonito “Mucho Mungo / Mt. Elga”. A propósito destas duas últimas canções, que bom seria ouvi-las cantadas por Rufus Wainwright (“Save The Last Dance For Me”) e Devendra Banhart (“Mucho Mungo / Mt. Elga”). É que parecem ter sido feitas para eles… Outro aspeto interessante de Pussy Cats é a sua capa, sobretudo por conter uma mensagem codificada bastante curiosa e reveladora do estado de espírito de Harry Nilsson e John Lennon. Os pequenos cubos com letras próprios para brincadeiras de crianças estão separados um do outro, sendo que no meio está um tapete. O primeiro mostra um D e o segundo um S. A meio, como dissemos, está um tapete (rug, em inglês). Tudo junto, a palavra que se pode “ler”, mesmo não estando presente, é drugs. Elucidativo. O álbum termina com mais um cover, o galático “Rock Around The Clock”.

E assim se fez mais Uma Mão Cheia de boa música, honrando um artista singular que poderia e deveria ter tido um maior reconhecimento público e comercial. Fica, por isso, a vontade expressa que o ouçam. Estes cinco álbuns são apenas sugestões, eventuais portas de entrada para um caminho que poderá ser trilhado a gosto, desbravando-se um fértil terreno musical de grande interesse, mesmo quando, por vezes, se possa tropeçar em discos considerados menores na carreira do músico norte americano.

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