Lusophonia

Sérgio Godinho || CCB

Sexta feira à noite, no grande auditório do CCB a rebentar pelas costuras, Sérgio Godinho escritor de canções deu lugar ao Sérgio Godinho intérprete, partilhando connosco as canções dos outros. O pretexto de partida foi devolver as suas crónicas do Expresso “Caríssimas canções” ao seu habitat natural. E como nada há mais íntimo do que as canções das nossas vidas, os covers que nós ouvimos acabaram por ser mais pessoais do que as suas próprias músicas. “Don’t forget the songs that saved your life”, cantavam os Smiths. Sérgio não esqueceu.

Sendo então intimista o registo, foi natural que Sérgio tivesse escolhido para o acompanhar três dos seus maiores “amigos de palco” dos últimos anos: Nuno Rafael e Hélder Gonçalves (ambos responsáveis pela direcção musical do concerto, além de tocarem guitarra, baixo e tudo o mais que encontrassem à mão) e Manuela Azevedo, aqui na discreta condição de instrumentista e backing vocals (e eu nem sabia que a vocalista dos Clã tocava tanta coisa: teclas, bateria, flauta, pandeireta, xilofone, eu sei lá…). Dadas as credenciais criativas desta malta, não será surpresa para ninguém se eu lhes disser que as canções originais foram subvertidas da cabeça aos pés, sempre com o bom gosto e a sofisticação pop que lhes é natural. Não saberiam fazer de outra forma.

Só para chatear, Sérgio abriu um concerto com uma canção sua: “A última sessão”. Mais tarde, cantou também outros originais fora de água: “Eu contigo” e “Acesso Bloqueado”. Mais perturbante foi quando cantou a música com letra sua mas com música de “alguém que habitou este palco em dias consecutivos”: todos se comoveram com a evocação a Bernardo Sassetti e aquela valsa triste e macabra soou, ontem à noite, um pouco mais triste e macabra…

Outra evocação – menos triste porque mais distante nos anos – foi a do Zeca, aqui relembrado e reinventado n“Os Vampiros”. Mas a cumplicidade entre o Sérgio e o seu público continuava arrasadora: “O nosso Zeca não podia faltar aqui. Tinha 18 anos quando ouvi Zeca a metaforizar assim. Deu a volta à minha cabeça. Continua terrivelmente actual.” E que versão! Uma espécie de rockabilly negro com sangue a espirrar dos amplificadores! Muitas palmas no final e, ao mesmo tempo, um nó apertado na garganta…
Percebemos também que os brasucas ocupam um lugar afectivo muito importante para o Sérgio: canções do Chico Buarque, do Noel Rosa e do Pixinguinha, foram todas coladas com orgulho no seu velhinho álbum de família. Os franceses também não ficaram muito atrás; e quando Sérgio cantou o “Sous de soleil exactement” do Gainsbourg, aproveitou para citar uma das suas deliciosas tiradas: “Nunca enganei ninguém a não ser os que estavam enganados acerca de mim”.

E assim continuou Sérgio pelo palco fora, sempre marimbando para a unidade estética do alinhamento em nome da muito mais importante unidade emocional. Enfiou assim os Beatles no Tony de Matos, os Stones no Frei Hermano da Câmara, o Dylan no Conjunto António Mafra, os Kinks na Violeta Parra e o Elvis no Jacques Brel! Como também é seu apanágio, pôs alguma spoken word pelo meio das canções – lendo excertos das crónicas que lhes diziam respeito.

E, a propósito do “Strange Days” dos Doors, Sérgio revelou a essência do que foi para todos nós este memorável concerto: “pisar territórios estranhos é também fazê-los nossos…”

Fotografia: Mário Romano

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