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O Dia em que Dylan pôs os Beatles a fumar o primeiro joint

Estamos em 1964 e dois nomes impõem-se na música popular cantada em inglês: Dylan, o sofisticado trovador; e os Beatles, os génios da pop. O contraste entre os dois ícones – no estilo musical, na natureza das letras, no público a que chegam – não poderia ser maior.

Sozinho à viola, Dylan canta a sua folk acústica e militante nos cafés de Greenwich Village. Sentados e absortos, estudantes universitários engajados à esquerda absorvem em silêncio todas as suas palavras. É um público maturo e sofisticado, tão progressista como snobe intelectualmente: malta que define a sua identidade por oposição ao “vácuo e burguês” rock’n’roll.

Desloquemos agora a câmara em direcção aos Beatles. Com o seu pop fresco e juvenil, mas ao mesmo tempo inovador e harmonicamente sofisticado, a banda de Liverpool havia revitalizado a música eléctrica (que esmorecera quando o Elvis fora para a tropa). Por todas essas razões, são a nova coqueluche da máquina de entretenimento pop. O seu público natural são miúdos do secundário sem qualquer consciência ideológica, atolados na cultura pop veiculada pela televisão, rádio e revistas. Os seus concertos acontecem em salas de cinema, onde miúdas do secundário gritam histéricas do princípio ao fim. Se é um crime não ouvirem com atenção as suas sofisticadas harmonias, nada se perde pela desatenção às suas pueris letras. “She loves you, ié, ié, ié” é, então, a sua line mais profunda.

Apesar das diferenças, ou talvez por causa delas, nasce uma grande admiração mútua.

Um dia Dylan ouve “I Wanna Hold Your Hand” no rádio do carro e fica fascinado com a pujança daquele som, que considera ser a reinvenção do rock’n’roll. Acha também piada ao arrojo da letra, naquilo que lhe parece: “when I touch you, I get high”, uma suposta referência ao consumo de cannabis. Deslumbrado com a inovação harmónica dos Beatles, dirá mais tarde: “Eles estavam a fazer coisas que mais ninguém fazia. Os seus acordes eram ofensivos mas as suas harmonias validavam aquilo tudo.”

Rumemos para o outro lado do Atlântico, no mesmo ano de ’64. Encontramos os Beatles em tour, por Paris, prestes a tocar no mítico Olympia. McCartney compra a um DJ local um disco de um tal de Bob Dylan. Trata-se do segundo álbum, The Freewheelin, provavelmente o disco dos sixties com mais canções-bandeira por metro quadrado, pérolas imortais como “Blowin’ in the Wind”, “Masters of War” ou “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”. Os Beatles ficam deslumbrados com o disco e durante os quinze dias que permanecem em Paris ouvem-no vezes sem fim. Harrison recordará que a descoberta do Dylan terá sido um dos momentos mais memoráveis da tour.

Havendo esse apreço recíproco, depressa um amigo comum – o jornalista musical Al Aronowitz – trata de congeminar um encontro entre ambos. Estamos no dia 28 de Agosto de 1964, ano do senhor. Os Beatles encontram-se em Nova Iorque, ponto estratégico da sua segunda tour americana (Magic America mais do que conquistada). Partindo de Woodstock – então discreta vila, sem qualquer florido simbolismo -, Dylan e Aronowitz voam de carro para Nova Iorque, encontrando-se com os Fab Four no Hotel Delmonico. Os Beatles oferecem-lhe champagne que havia na suite, mas Dylan diz preferir vinho barato. Pedem então a Mal Evans (o mais célebre de todos os roadies) para providenciar mau vinho tinto para o seu ilustre convidado.

Enquanto esperam, Dylan pergunta-lhes se querem fumar uma ganza. Faz-se um silêncio pesado, até que o manager Brian Epstein acaba por dizer: «Nunca fumámos erva.» Dylan fica perplexo. «E então e o “I Get High” que cantam em “I Wanna Hold Your Hand”?» Meio embaraçado, Lennon responde: «É “I can’t hide”»…

Dylan sorri. Enrola a primeira ganza e passa-a a Lennon. Este passa-a de imediato para Ringo, apresentando-o como o seu provador real. Desconhecendo a etiqueta de ir rodando a ganza, o lambão do Ringo fuma-a sozinho. Tendo a erva passado pelo crivo do provador real, Aronowitz enrola e distribui as demais ganzas.

Todos os presentes ficam com uma valente broa. McCartney, por exemplo, está convencido de que descobriu o sentido da vida. Sente que evolui para níveis de conhecimento superiores e fica surpreendido por reencontrar, a cada nível, sempre as mesmas pessoas. Diz, eufórico: “Estou a pensar! Pela primeira vez, estou realmente a pensar!”. Para poder apontar os seus profundos pensamentos, McCartney pede um lápis. Todos se riem perdidamente enquanto procuram no seu cérebro lentificado o significado do conceito “lápis”. Insistindo, McCartney lá consegue que Mal Evans o siga para todo o lado, apontando num bloco tudo o que ele diz. No dia seguinte, cheio de expectativa, McCartney pede a Mal o caderno das grandes revelações. Apenas três palavras foram escritas: “Há sete níveis.” Paul e Mal escangalham-se a rir.

Este encontro – anedótico nos seus contornos – influencia profundamente ambos os protagonistas. A erva que partilharam não foi em vão pois foi a partir dela que a música pop evoluiu em duas fascinantes direcções: os Beatles dylanizam-se, abraçando a contracultura e aperfeiçoando as suas letras; e Dylan aproxima-se dos Beatles, electrificando a sua música e ascendendo ao estatuto de estrela pop.

Lennon foi o Beatle mais influenciado por Dylan. Poucas semanas depois do encontro no Hotel Delmonico, Lennon escreve “I’m a Loser”, ainda a tempo de figurar em Beatles For Sale. Seguindo as passadas do seu novo mestre, a canção é folkie e acústica, com uma linha de harmónica típica de Dylan. Mas bem mais importante do que a citação musical, vem uma influência bem mais profunda: uma radical mudança no seu posicionamento artístico, agora mais denso e autêntico. É confessional e desencantado o tom emocional de “I’m a Loser”, onde sob a capa de uma banal canção de amor se esconde um grito de desespero. A mesma confissão velada reaparece em “You’ve Got to Hide Your Love Away” (Help) e Norwegian Wood (Rubber Soul), canções nas quais o flirt com Dylan – seja na forma anasalada de cantar, seja na recusa das harmonias vocais e bateria – é agora bem mais evidente.

O próprio Lennon designou esta sua fase criativa como o seu “Dylan period”. E o reconhecimento pelos Beatles desta influência reaparecerá mais tarde noutros pormenores, desde Dylan figurar na capa de Sgt. Pepper’s até o nome “Bobby Dylan” aparecer na letra de “Give Peace a Chance”. Quando, para o seu primeiro álbum a solo, Lennon grava o icónico “Working Class Hero”, percebemos que o molde estético a que recorre é “Masters of War”.

Não devemos descurar a influência que a própria cannabis exerceu sobre o processo criativo dos Beatles. Ringo Starr é o primeiro a reconhecê-lo: “Fumar erva passou a ser o nosso pequeno-almoço. A erva foi muito influente em muitas das nossas mudanças, especialmente nas letras. E como estávamos a escrever palavras diferentes, começámos a tocar de uma forma diferente.” Se em Help já se notava, aqui e acolá, a influência da erva, é em Rubber Soul que ela mais se revela. Lennon chegou mesmo a apelidar esse disco como o “the pot album”. E se Rubber Soul é o primeiro disco de maturidade dos Beatles, tal se deve também à inspiradora presença de Mary Jane.

Mas não nos esqueçamos que o encontro no Hotel Delmonico teve também repercussões no sentido oposto. Dylan estava cansado de ser um ícone da folk engajada, sentindo-se prisioneiro dessa estreita identidade. Os Beatles dão a Dylan a coragem que lhe faltava para experimentar novas soluções artísticas: o enorme respeito que Dylan tinha pela sua música actua como poderoso incentivo. 1965 será o ano da mudança: primeiro tímida com Bringing It All Back Home (só o primeiro lado do disco é electrificado), depois explosiva com Highway 61 Revisited. O sucesso da suja e eléctrica “Like a Rolling Stone” surpreende tudo e todos.

Não subestimemos a importância do empurrão dos Beatles neste processo. Os Fab Four eram tão grandes que tudo aquilo em que tocavam se transformava logo em sucesso. Ao gravarem covers da Motown, já tinham posto as audiências brancas a comprar, pela primeira vez, os grandes discos da música negra. O mesmo fenómeno de arrastamento sucede agora com Dylan: ao reconhecerem publicamente a sua influência, todos os holofotes mediáticos se viram, de repente, para a beira do autor de “Blowin’ in the Wind”. O folk rock acabado de nascer chega instantaneamente ao mainstream.

Inicialmente, os puristas da folk ficam indignados com esta metamorfose. Na melhor das hipóteses, consideram-na uma concessão, e na pior, uma verdadeira traição. Quando no Festival de Newport Dylan electrifica as suas canções, o público insulta-o, chamando-o de Judas. Mas graças à miscigenação folk rock encetada pela dupla Dylan/Beatles, as fronteiras estanques que antes dividiam a subcultura do rock juvenil da subcultura da folk acabam por se diluir. No processo, ambos os públicos crescem.

Os Beatles trazem para a pop uma sofisticação harmónica e melódica sem precedentes. Por sua vez, Dylan imbui a música popular de uma sofisticação literária também inédita. Através do poder mágico da erva, os dois gigantes interpenetram-se: o poeta Dylan torna-se estrela pop e as estrelas pop Beatles ascendem a poetas. Juntos transformam então a arte menor que era a pop num género sofisticado, respeitado até por outras tradições artísticas.

Deus abençoe a cannabis.

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