Canção do dia

“Estrela da Tarde” – Carlos do Carmo

(Esta semana o tema são despedidas. Primeiro a quatro músicos que morreram este ano. E o quinto adeus é a um senhor que anunciou que vai deixar de cantar. Deixamos aqui as nossas homenagens.)

O Festival da Canção habituou os portugueses a canções desinspiradas e frouxas, de letras simplistas e interpretações para lá de banais. Mas nem sempre foi assim. Houve até grandes canções compostas para o certame. O senhor Carlos do Carmo cantou em cerca de metade delas.

Filho da fadista Lucília do Carmo e do dono do restaurante O Faia, Alfredo de Almeida, Carlos do Carmo é, a par de Alfredo Marceneiro, o mais importante fadista português (Amália é um astro à parte, uma força da natureza inexplicável).

Em 1976, a RTP apostou em ter um único músico a interpretar oito temas e o público teria de escolher qual deles seguiria para a Eurovisão. Compuseram o fadista Manuel Alegre e José Niza (“Flores de Verde Pinho”, esse portento de poema que é elevado por Carlos do Carmo) e José Carlos Ary dos Santos e Fernando Tordo (“Novo Fado Alegre” e “Estrela da Tarde”).

Apesar de terem sido as duas outras que conseguiram o primeiro e segundo lugar (respectivamente), olhe-se para “Estrela da Tarde”, que ficou em sexto. Que canção era esta, composta por um conhecido comunista e interpretada por um “menino bem” que gostava e defendia as causas da esquerda revolucionária?

Fernando Tordo e Joaquim Luís Gomes trataram da composição e orquestração, respectivamente, da canção. O arranque no dueto entre cordas e pianos é ameaçador, mas sublevado pela voz doce de Carlos do Carmo.

Apesar da Revolução já ter acontecido, Portugal era ainda um país conservador e os versos sensuais de Ary dos Santos cantados por Carlos do Carmo terão deixado muitos desconfortáveis. E não bastasse esta sensualidade dupla (da voz e das palavras), a orquestração põe os violinos a triplicarem as volúpias da canção.

Paixão desenfreada, luxúria entre amantes e o homem certo para os cantar.

Carlos do Carmo é o mais sensual dos fadistas, que deve tanto ao fado e aos poetas como ao tango e à chanson française. É um músico único, irrepetível e grandioso. Vai dar o seu último concerto no Coliseu de Lisboa a 9 de Novembro. Todos vamos perder por ele se retirar e todos ganhámos por ele existir.

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