Canção do dia

“Purple Rain” – Prince

(Hoje excepcionalmente, por razões que todos compreenderão, lançaremos duas canções do dia.)

Na literatura e no cinema a chuva é associada a tragédia ou a romantismo – por vezes associa-se a duas na mesma obra. Acontece em El Amor en los Tiempos del Cólera e acontece em Romeo + Juliet.

O fenómeno aparece igualmente nas duas medidas em “Purple Rain”, uma das mais icónicas músicas da carreira de Prince. A canção é associada ao amor que The Kid – a personagem principal do filme do mesmo nome, desempenhada por Prince – sente pelos seus pais, pela sensual Apollonia e pela sua banda, os The Revolution. Mas agora a canção ganhou um gosto agridoce, tendo-se tornado a herança de um músico que partiu demasiado cedo.

A canção é gigante e é um testemunho da genialidade de Prince. É a simplicidade do acompanhamento musical, são os gloriosos solos de guitarra, a fragilidade da voz e aquele refrão maior do que a vida. É o erotismo presente em passagens como “I only want to see you bathing in the Purple Rain” e a sensualidade dos suspiros gritados; é o falsete que soa a realidade e é aquele grito libertador que causa arrepios na pele.

Tudo numa só canção. Não está ao alcance de todos.

Na madrugada do fatídico dia 21 de Abril, dia em que Prince nos abandonou, deu-me uma vontade enorme de ouvir “Purple Rain” a caminho do Bairro Alto. Enquanto tocava a canção que dava título ao disco de 1984, uma carga de água caiu na cidade, encharcando-me até aos ossos.

Em vez de dançar no meio da rua pela feliz coincidência entre a segunda parte do título e a realidade, continuei em frente para tentar fugir daquela chuva. Dancei mais tarde, já dentro da redacção. E vou continuar a dançar durante os próximos dias para me arrepender de não ter aproveitado o sinal que me era dado para apreciar Prince quando ele ainda estava connosco.

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