Canção do dia

“Achille’s Last Stand” – Led Zeppelin

O som surge distante e desfragmentado, como que uma nuvem de areia a atravessar o deserto. Mas depois a guitarra ganha garra (bonita aliteração), entram o baixo e a bateria e aquilo que pensávamos ser vento eram na verdade cavalos desenfreados a correr e levantar a areia atrás de si. Os animais atropelam-se, cada qual tentando obter a dianteira da corrida. Chega então o cavalo dourado que canta num tom místico e ao mesmo tempo assertivo. Esse cavalo que lidera a corrida é Aquiles, com o tornozelo partido, mas que mesmo assim investe em direcção à glória. Atrás de si os seus Mirmidões, os mais temidos guerreiros gregos.

Aquiles canta sobre as longas viagens que teve de fazer enquanto os seus camaradas de armas recordam as adversidades dessas viagens através de um instrumental pujante e ritmado que interrompe, com consentimento, o líder magoado.

“Achille’s Last Stand” é uma das mais poderosas canções dos Led Zeppelin e faz parte de um dos seus mais mal-amados discos: Presence, de 1976. O tom galopante do baixo e bateria cria uma base sólida para a orquestra de guitarras que Jimmy Page cria para esta sua obra épica. E Plant faz recurso de todo o arsenal para embelezar o resultado.

E o título da canção não podia ser mais apropriado já que os Led Zeppelin, a grande máquina de tocar ao vivo, tinha cancelado uma digressão depois de Robert Plant ter partido o tornozelo, o ponto fraco de Aquiles, o herói da Guerra de Tróia. O vocalista gravou mesmo toda a canção sentado numa cadeira de rodas. E mesmo nesta condição, Plant conseguiu aquele troar de fazer tremer a terra, mostrando que não é senão uma reencarnação ainda mais forte de Aquiles.